Dois sindicalistas, presos com Lula por 30 dias em 1980, afirmam que Benjamin está louco
O artigo do ex-petista, ex-filiado ao Psol, ex-militante secundarista e de esquerda, César Benjamin, publicado em página inteira no jornal Folha de S. Paulo desta sexta-feira (27/11), acusando o presidente Lula de tentar violentar outro preso político nos 30 dias em que ficou preso no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) foi considerado “insano, mentiroso e ressentido” por militantes que ocuparam a mesma cela que o presidente em 1980. Djalma Bom, ex-deputado federal e ex-vice-prefeito de São Bernardo, e o deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP), os únicos que permaneceram todos os dias presos com Lula, negaram a acusação do articulista da Folha.
Ambos afirmaram que apenas sindicalistas ficaram presos na cela onde o presidente foi detido e negaram que qualquer militante do MEP (Movimento Emancipação do Proletário) tenha permanecido na mesmo local.
“Chegamos a ficar em 18 presos. Todos conviviam juntos, repartindo as tarefas. César Benjamin faria um serviço à sua história se não estivesse preocupado com coisas absurdas. Parece uma coisa de pessoa ressentida, revanchismo. Não pode estar com a cabeça boa. Seria uma contribuição se ele fizesse uma discussão ideológica contra o PT”, afirmou Djalma Bom.
“Esse César Benjamin ficou louco. A luz nunca ficava apagada, ficávamos jogando baralho e tentando manter a cela organizada. Não tinha ninguém do MEP. Benjamin acredita que por ter ficado muito tempo preso pode falar tais absurdos. Ninguém é melhor do que ninguém só pelo tempo de prisão”, relembrou Ribeiro.
O chefe de gabinete da presidência, Gilberto Carvalho, afirmou nesta sexta que Lula tomou conhecimento do artigo de Benjamin e ficou “triste, abatido e sem entender” o motivo do ataque.
Confira o trecho do artigo publicado pela Folha, no qual Benjamin acusa Lula.
Os filhos do Brasil
César Benjamin
Especial para a Folha
(…) São Paulo, 1994. Eu estava na casa que servia para a produção dos programas de televisão da campanha de Lula. Com o Plano Real, Fernando Henrique passara à frente, dificultando e confundindo a nossa campanha.
Nesse contexto, deixei trabalho e família no Rio e me instalei na produtora de TV, dormindo em um sofá, para tentar ajudar. Lá pelas tantas, recebi um presente de grego: um grupo de apoiadores trouxe dos Estados Unidos um renomado marqueteiro, cujo nome esqueci. Lula gravava os programas, mais ou menos, duas vezes por semana, de modo que convivi com o americano durante alguns dias sem que ele houvesse ainda visto o candidato.
Dizia-me da importância do primeiro encontro, em que tentaria formatar a psicologia de Lula, saber o que lhe passava na alma, quem era ele, conhecer suas opiniões sobre o Brasil e o momento da campanha, para então propor uma estratégia. Para mim, nada disso fazia sentido, mas eu não queria tratá-lo mal. O primeiro encontro foi no refeitório, durante um almoço.
Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: “Você esteve preso, não é Cesinha?” “Estive.” “Quanto tempo?” “Alguns anos…”, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: “Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta”.
Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.
Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o “menino do MEP” nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.
O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu (…)