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27/12/2008 - CULTURA
  A Vera Cruz sofria de incompetência, diz artista
  Por: Liora Mindrisz  (liora@abcdmaior.com.br)

 
Como conselheiro de Cultura de São Bernardo, Pierino apresentou projetos que foram ignorados. Foto: Luciano Vicioni
Como conselheiro de Cultura de São Bernardo, Pierino apresentou projetos que foram ignorados. Foto: Luciano Vicioni
 
Ex-cenógrafo faz críticas aos estúdios de SBC e fala sobre seu trabalho


Uma história contada através da visão dos bastidores. O ponto de vista e o local, porém, não tiram o título de artista de Pierino Massenzi, o ex-cenógrafo da Vera Cruz que também foi diretor de arte, contra-regra, pintor e marceneiro. Sem papas na língua, Pierino não pensa duas vezes antes de afirmar que os estúdios de São Bernardo sofriam “de incompetência” e que o problema era maior do que só uma questão de organização. Em entrevista exclusiva ao ABCD MAIOR, o artista plástico também falou sobre seu trabalho como pintor, o ateliê que mantém em casa, a venda de suas obras e a época em que foi conselheiro de Cultura de São Bernardo. Leia, a seguir, a íntegra da entrevista.

ABCD MAIOR- O senhor, que fez parte de parte da história do cinema nacional, tem muitas histórias para contar da Vera Cruz?
PIERINO MASSENZI - Contar a história do cinema e da Vera Cruz é muito complexo porque eu conto a história por trás dos bastidores, que não é tão glamourosa quanto se contou.

ABCD MAIOR - Quais os motivos do descontentamento?
PIERINO - A Vera Cruz não sofria de má administração e sim de incompetência. Fiz cenários imensos para filmes da Universal com os recursos que tinha na época e em 15 dias eles filmavam. “O Cangaceiro”, por exemplo, levou nove meses. “Tico Tico No Fubá”, 12 meses. Esse era o problema.

ABCD MAIOR - A desorganização ficou marcada?
PIERINO - Não era só questão de desorganização. Existia uma sobrepujança, de um querendo ser mais do que o outro.

ABCD MAIOR – Como você foi convidado para trabalhar com cinema?
PIERINO - Aldo Calvo (cenógrafo) me convidou. Entrei como um simples pintor, mas acabei mostrando o trabalho. Por uma briga de Aldo e Alberto Cavalcanti (diretor), tive que terminar a cenografia de “O Caiçara”, em 1949. E daí para frente não parei mais.

ABCD MAIOR - Além de cenógrafo, o senhor teve outros cargos?
PIERINO - Eu era diretor de arte, cenógrafo, contra-regra, pintor, marceneiro. Naquela época, era o Pierino para tudo. Não é como hoje que existe assistente de qualquer coisa. No meu tempo, a cenografia era feita com canivete, serrote e martelo. Mas eu não era reconhecido. Era tratado como gringo pelos nacionalistas, estrangeiro pelos estrangeiros, era renegado pelos meus patrícios.

ABCD MAIOR – O senhor acha que isso acontecia por ser imigrante?
PIERINO - Era o preconceito por eu não puxar o saco de ninguém.

ABCD MAIOR – O que fez depois que saiu da Vera Cruz?
PIERINO - Criei cavalo, plantei banana e tinha uma firma de decorações até 1972 que quase faliu. Depois comprei essa chácara, chamei meus filhos, e construímos todas as casas. Sou patriarcal. Meus três filhos, sete netos e um bisneto moram comigo.

ABCD MAIOR – O senhor foi também Conselheiro de Cultura em São Bernardo?
PIERINO - Fui conselheiro por cinco anos, mas pisaram no meu pé até a última hora. Apresentei projeto para fazer festival de cinema, Escola de Cinema, de Centro Cultural na Vera Cruz, de escola de Arte Cinematográfica. Nada foi ouvido porque não eram projetos deles, aí fiquei desgostoso.

ABCD MAIOR – E as suas pinturas? Vendo seus quadros percebe-se uma preocupação com a questão social. Qual a característica da sua arte?
PIERINO - Fiquei impressionado com a pobreza que vi no Brasil todo. Eu não compreendo e essa era minha inspiração. Faço um desenho colorido com representações cinematográficas. Tem perspectiva, profundidade, luminosidade, tema, anatomia, tem tudo. É o conhecimento da matéria dentro do meu caráter.

ABCD MAIOR – E em Roma, o que você pintava?
PIERINO - Não pintava nada. Como estudante, tinha que fazer muito sacrifício. Quando novo, meu pai me incentivou a estudar e trabalhar. Em 1945, entrei na Segunda Guerra pela cavalaria. Mas eu tinha folga para estudo, fazer prova e apresentar trabalhos. Depois do final da guerra na Itália, em 1947, casei e vim para o Brasil contratado pela feiras de São José como professor de desenho. Vim recém-formado e recém-casado, com a bagagem cheia de teoria e nada de prática.

ABCD MAIOR – Nesse ateliê que tem em casa quem o senhor recebe?
PIERINO - Essas obras que estão aqui não são feitas para vender. Me arrependo de já ter vendido, é como perder um filho. Daqui não sai mais nenhum. Aqui só recebo crianças de escola primária. A sala enche. Isso dá satisfação porque sentimos a verdade da transmissão do pensamento dessas crianças.

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