09/01/2017 15:25

A despedida do Porto da Copinha e a saga do Brasil invisível

Por: Marcelo Mendez (marmendez038@gmail.com)

O time do agreste pernambucano é um Brasil que vive no limite, acostumado a ter que definir entre a glória e o abismo

O domingo de verão era imenso em Diadema. O sol em fúria, o concreto quente e o bafo do começo da tarde me fizeram tomar três copinhos de água que a mocinha que atendia a imprensa, nas cabines do estádio Inamar (com muita gentileza, diga-se), de um só gole cada.

Ali haveria um jogo. Uma peleja da Copa São Paulo de futebol Júnior, cujo enredo é comum a tantas vezes quantas se cobrirem a competição. Jogariam Santo André e Porto, da cidade de Caruaru, agreste pernambucano.

Corpo tratou a Copa São Paulo como sua Copa do Mundo e deixa competição com campanha honrosa. Foto: Tiago Silva

Em Diadema, onde aconteceria o jogo, o enredo era mais um daqueles previstos pela Copinha. E como sempre, vem a velha realidade dura do Brasil que o Brasil não quer ver, em detrimento do muito de engano que se imputa quando se pensa na verdade que há no futebol.

No jogo, o Santo André, time do nosso ABCD, muito bem treinado por Ari Mantovani, com bons jogadores, lutaria diretamente pela classificação para a próxima fase contra o Porto, jogando pelo empate. Não que a realidade do Santo André seja diferente, os garotos do Ramalhão lutam a duras penas para existir, longe dos holofotes da mídia, das marquetagens de empresários ávidos por “vendas” e afins. O clube andreense seguir existindo no ano de seu cinquentenário já é por si só uma glória.

Mas vejamos o caso do Porto de Caruaru e sua aventura na Copinha.

A Copa São Paulo pode ser vista de várias formas desde que não se tenha a velha preguiça que por vezes contamina as pautas. Para muito além de apenas futebol, temos esparramado em seus 120 clubes participantes as maiores histórias de vidas e sonhos que se possa ter. Para essas equipes chegarem aqui, às vezes são necessárias verdadeiras epopéias. Mas e para permanecerem? O que precisa ser feito? No caso do Porto, uma vitória que vale a “vida” na competição.

“Lutamos com muita dificuldade no nosso Estado, em nossa cidade e para que possamos fazer futebol e manter o time em atividade, precisamos de toda a ajuda possível. São empresários locais, apaixonados pelo clube, nós da diretoria, todo mundo juntos pra conseguir. Esse ano viemos de avião, tudo tranquilo, vale a pena porque a Copa São Paulo é nossa Copa do Mundo. Mas o dia a dia é duro”, me explica o simpático e elegante Zé Porfírio Oliveira, presidente do Porto.

Mas, dessa vez, para a infelicidade de seo Zé Porfírio, não deu. Os seus meninos, sabedores da luta e das necessidades todas, foram valentes e até abriram o placar contra o Santo André. Mas a falta de força e de preparo físico para suportar a pressão os fizeram sucumbir e o Ramalhão virou o jogo para 2 a 1, ficando com a vaga. Tristeza.

Seu Zé Porfírio me disse que queria uma sorte melhor, que seus meninos mereciam, mas que nada tinha a reclamar. É compreensível.

Seu Zé Porfírio e o time do Porto são parte de um Brasil quase óbvio que sobrevive longe das capitais. É um Brasil que vive no limite, dançando no fio da navalha, acostumado a ter que quase sempre definir entre a glória e o abismo. Um Brasil que já não tem mais tempo para sonhar e que dos abismos tantos luta por um réquiem de felicidade mínima.

O Porto de Caruaru não teve. O clube se despede da competição de maneira honrosa e seguirá sua luta para que um dia sua sorte seja outra.

Uma hora há de dar certo.


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Tags:
futebol copinha

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