18/04/2017 17:29

O homem mais importante de muitas vidas musicais

Por: Marcelo Mendez (marmendez038@gmail.com)

Conheça a história de Toninho e a banca que trouxe referências musicais para toda uma geração

Eis Toninho, sua banca de discos, e o caldeirão de referências onde toda uma geração mergulhou. Foto: Rodrigo Pinto

“Em 1983 estudava no João Ramalho (centro de São Bernardo) e conheci dois irmãos. O Chico era meu camarada de sala de aula, trocamos informações musicais e literárias, frequentávamos a cena underground do entorno (hippies, punks, rockers e que tais. O Tonho era o irmão mais velho do Chico, o sarrista, com humor ácido e quilos de referências musicais. Amigos, fortes amigos. Em 1985 os dois herdaram uma banca de revistas usadas do pai no centro de Santo André. Virou o pão e a arte dos dois. Ponto de encontro de muitas tribos, resistências e existências, conheci muita gente por ali. E sons: samba, dub, punk, hard, rock and roll, valsas, afro beat, choro e tals. A "Banca do Zé" ali no comecinho da Av Industrial fez escola e contou muitas histórias. A vida e o tempo me afastou do Chico. O Tonho perdurou amigo e muitas vezes confidente, o professor de algumas musicas de Geraldo Pereira, Terry Callier a Gil Scott Heron. É um cara pra nunca esquecer. Passo de quando em quando na banca, mas estão lá o sorriso, os sons, a presença e as histórias pra relembrar”, conta-me Ricardo Queiroz, bibliotecário,gestor cultural e torcedor da Lusa.

Os padrões do jornalismo não me recomendariam essas aspas de Ricardo Queiroz como abre dessa matéria. No entanto, há muito tempo que já mandei as favas todo e qualquer padrão desses que engessam o verso.

Porque o nosso mestre, meu e de Ricardo, não faz parte de padrão nenhum. Vamos aqui falar de um homem que sem duvida nenhuma é um das maiores, das mais importantes referencias e influências culturais da cidade de Santo André e de todo ABCD.

Vamos contar a história do Toninho, o mais importante mestre da Cultura da cidade de Santo André.


Os Pupilos do Mestre...

Era o ano da graça de 1990 na minha vida, quando conheci o Toninho.

E para entender a importância do Toninho na formação cultural minha e de toda uma geração se faz necessário voltar para essa época. Uma década que começava sendo amassada pelo governo Collor, com a grana e os corações congelados, com toda a vida cultural distante demais para nós que morávamos do lado de cá do Tamanduateí.

Não existia internet, não existia telefone celular, não tinha TV por assinatura, Netflix, Google, grana nem nada. Para se conseguir uma informação era uma tarefa hercúlea para quase todo mundo. Quase... Porque nós tínhamos a Banca do Toninho e do Chico.

“Toninho e Chico para mim são peças fundamentais pra fomentação de boas referencias musicais para ouvintes dos final dos anos 1980 e anos 1990, sobretudo para aqueles que mais tarde vieram ser músicos, como eu, Claudio Cox, Ivan Marcio (gaitista) e outros. Com uma imparcialidade de gosto, ele apresentava pra nós bandas e músicos de todos os gêneros e estilos, com detalhes da importância musical de cada um dentro do cenário da musica mundial, era de Jackson do Pandeiro a Thelonious Monk, e ainda te indicava um horário propicio para ser ouvido. Era um luxo em uma época em que saber disso tudo era muito difícil”, explicou André Calixto, músico do Otis Trio e da Nomade Orquestra entre outros projetos.

Citado por André Calixto, Claudio Cox vocalista da banda Giallos, fala sempre com enorme gratidão e alegria quando o assunto é a banca do Toninho.

“Conheci o Toninho no final dos 90, era pré internet e essas papagaiadas todas. Fase de transição minha também que estava atrás de uns grooves, selo blue note, uns funks da pesada. Aí cai lá. Além dos grooves, peguei várias coisas importantes que eu não tive acesso por causa de grana. Specials, Garage 60’s de tudo. Cara inteligente, bom de conversa, foi amizade certeira”.


O Cara mais Importante de Muitas Vidas Nossas...

Como bem disse Ricardo, Chico foi cuidar da vida dele e hoje, pouco sei do amigo.

Quanto ao Toninho, afirmo que não existiria o jornalista que escreve essa materia, se não fosse a sua banca de discos e sua amizade. E é muito fácil de entender o porquê disso...

Na história das artes e dos grandes levantes culturais, são vários os faróis que iluminam a coisa toda. Allen Ginsbergh iluminou a poesia americana do século 20; Charles Parker virou o jazz do avesso; Glauber Rocha reinventou o cinema brasileiro; Truman Capote ensinou os americanos a fazer bom jornalismo; Torquato Neto fez a crônica do tropicalismo.

Aqui na minha Santo André, Toninho tem a mesma importância de todos eles. Foi o cara que iluminou as cabeças de uma geração toda, que hoje comanda a cena cultural da cidade e por onde quer que se ande, em cada nota, em cada verso, em cada frame de filme feito em Santo André, tem a mão do Toninho a guiar os seus.

Portanto, mais do que apenas uma matéria, isso aqui é uma homenagem a um cara que é importante demais, o mais importante de tudo.

Muito obrigado, Toninho. Por tudo...

A banca do Toninho segue ali no mesmo endereço de sempre, no começo da Avenida Industrial, em frente ao terminal oeste de Santo André

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