10/01/2017 11:07

Giallos em Santo André, ou a hora e a vez do rock sangrar

Por: Marcelo Mendez (marmendez038@gmail.com)

Ver um show da banda é uma experiência apocalíptica, um transe anfetamínico

Sábado ultimo, a banda se apresentou mais uma vez no 74 Club. Foto: Fabio Zerbini

“Somos movidos pela saudade, pelo amor e pelo ódio. O passado de abismo nos corações que batem, que batem sem dó no peito dos fortes e dos fracos. Uma espada contra uma colher de pau. Longe de casa, longe dos seus. Só sobrou o trabalho forçado.”

Alguma coisa acontece com a pressão arterial da cidade de Santo André, quando Claudio Cox berra os versos de “Rinha”, acompanhado dos primeiros riffs da guitarra de Luiz Galvão e das batidas alucinadas da bateria de Flavio Lazzarin. Não é só um show de rock.

Ver um show dos Giallos é uma experiência apocalíptica, um transe anfetamínico contaminado por cenas de filmes de Dario Argento, Explotation Movies, riffs de guitarras incendiários, reminiscências de bandas como MC5, Cramps, ícones do blues como Son House e todo o cheiro de monóxido de carbono, abençoado pelo céu cinza poluído que nos protege. É muito mais...

Giallos é a nossa sinfonia possível.

Aquela que vem dos becos escuros, dos bares suspeitos, da poesia profana que jorra dos versos de Mateus Novaes, que louva toda a decência que há nos anos de rock and roll nas solas de nossos Mad Rats, Vans e All Stars. Giallos é que nos representa.

Sábado ultimo (07/01), o trio se apresentou mais uma vez no 74 Club, o nosso porão de resistência, nossa casinha, o lugar onde Du Motta e Pezão heroicamente mantém dando espaço para o que há de mais marginal, mais alternativo, mais rock and roll da música que teima em ser autoral em um tempo onde cópias se arvoram em protagonismos e outros golpes duvidosos... Era o show do discaço “Amor só de Mãe”, um petardo de um milhão de toneladas de riffs e fúria que ali no 74 Clube seria cometido.

Em meio a toda hipnose causada pela performance arrebatadora do vocalista Claudio Cox, a platéia que esteve no porão mais rock and roll do abcd ganhou de presente a inédita faixa “Particular” para abrir os trabalhos e nada mais seria como antes; Era a catarse que começava, os Giallos cometeriam o rock como se não fosse haver amanhã em Santo André.

Faixas como “Açougue”, “Síndrome de Estocolmo”, “Baobá Blues”, “Dança Macabra” entre outros hits improváveis, elevam uma experiência que seria óbvia a uma relação catártica entre público e banda. Claudio Cox no palco, munido de maracas e microfone em punho é um xamã do apocalipse, uma entidade andreense, meio Dead Boys, meio Iggy Pop a vociferar rocks e odes do fim do mundo, um espetáculo de som, versos e fúria.

No final de tudo, ao som da seminal “Pombo Bomba”, à beira de explodir com toda a mesmice vigente, o que seria então só um show, termina. Envolto em um transe, fica difícil definir, explicar o que ali aconteceu. Foi uma enxurrada de rock and roll que passou por minha vida e me deixou assim... Mas é normal.

Enquanto a cidade tenta dormir nas noites quentes de verão, o Giallos comete o rock. Acordem, portanto, e ouçam o Giallos. Bem melhor que só dormir.

Giallos apresentou o show do discaço 'Amor só de Mãe'. Foto: Fabio Zerbini


Tags:
música

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