16/12/2016 13:59

Elza Soares e a A Mulher do Fim do Mundo em Santo André

Por: Marcelo Mendez (mmfluk@gmail.com)

Nosso colunista Marcelo Mendez esteve no show e nos conta o que viu

Quantas vidas são necessárias se viver para ser Elza Soares?

Quantas noites insones, quantas madrugadas apocalípticas em bares duvidosos foram salvas com o verso cortante entoado por essa mulher que sempre cantou como se não houvesse amanhã?

No meu caso, em uma dessas noites no meio dos anos 1990 em que eu estava mais Ian Curtis que Caetano, tomado por todas as minhas dores de todas as pequenezas da minha existência a qual julguei desnecessária naquele momento, decidi que nada disso precisava continuar e concluí:

“Vou morrer”

Me peguei à uma garrafa de campary como se fosse a última. Algumas pílulas de desassossego e pensava como seria minha quase morte quando as caixas de som daquele boteco fétido do centro de Santo André tocou uma música forte, rasgada, firme. Uma voz de mulher cantou então “Dê-me Tuas Mãos”. Um bolero vigoroso e lindo.

No instante que ouvi aquela mulher cantar, o que não fez mais sentido em mim foi a morte. Eu passei a querer todas as vidas possíveis para poder ouvir tudo, saber tudo, sentir tudo de Elza Soares.

Passou o tempo.

E eu vivi para chegar em 2016 e ser escalado para ir ao Teatro Municipal de Santo André para cobrir o show A Mulher do Fim do Mundo para o ABCD MAIOR. Na ida até o teatro, tomado por todos esses pensamentos senti uma emoção que em grande parte preconizava tudo que se veria nas próximas. Um show ímpar se inicia.

Elza canta Coração do Mar e hipnotiza uma platéia que em êxtase se entrega completamente ao que começa; “Meu choro não é nada além de carnaval/É lágrima de sangue na ponta dos pés”. E partir desse momento esqueçam todo e qualquer sentido ou arremedo vago de razão. Em Santo André, o que houve no Teatro Municipal foi muito mais do que apenas um show.

Em meio a canções como Maria da Vila Matilde (Falando de violência doméstica sofrida por mulheres) “Pra Fuder” (Kiko Dinucci) “Benedita” (Celso Sim) o que se viu ali foi um transe, uma interação xamânica e catártica entre a cantora e as três gerações que estavam na platéia extasiada com que ali estava sendo oferecido.

Era a Pele Preta, da música, da voz, da opinião, da vida de uma mulher que jamais fez concessão alguma entre a paixão pelo se faz e a vida em toda sua plenitude. Elza encerrou o set list do show com um petardo de nome Comigo (Rômulo Fróes e Alberto Tassinari) em que à capela, ela canta "Levo/ Minha mãe/ Comigo/ Pois deu-me/ Seu próprio ser.". O Teatro todo é tomado por lágrimas que escorreram no bis com a pertinente Volta por Cima de Paulo Vanzolini e Pressentimento, de Elton Medeiros.

As cortinas se fecharam.

O show acabou. A noite eu não sei. Não sei quanto tempo levarei para tirar do meu peito o que eu senti naquelas horas em que ali estive. Estar perto de Elza Soares é tocar a divindade com mãos de criança. É inenarrável, é onírico é uma experiência que eleva o espírito de seres mortais que somos, que deixamos de ser, justamente pelo tempo que estamos diante dela.

Depois de ver o show da “Mulher do Fim do Mundo” a conclusão que chego é que talvez eu precise viver mais algumas vidas para saber o que foi que aconteceu em Santo André. Seja como for eu estou feliz. De todos os fins de mundo possíveis e improváveis que vivi em um deles encontrei uma Mulher como Elza Soares.

Viva...

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