01/06/2008 00:00

Anti-herói da fotografia, João Colovatti ganha exposição

Por: Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

Santo André exibe, até o final de junho, 30 trabalhos do fotógrafo que imprimiu um olhar autêntico ao ABCD

O fotojornalismo no ABCD pode ser dividido em antes e depois de João Colovatti. A opinião é de Marcelo Vitorino, curador da exposição "Revelações de um anti-herói: fotografias de João Colovatti". Ele passou anos pesquisando em arquivos e conversando com diversos companheiros de Colovatti. Observando o trabalho do fotógrafo, a afirmação não parece exagero.

A partir dessa busca, Vitorino, que também é fotógrafo, reuniu cerca de 30 obras de Colovatti, que estão expostas no Espaço de Cultura Casa Amarela da Fundação Santo André desde quarta-feira, dia 28 de maio. A exposição tem entrada gratuita e fica durante um mês no local. A produção é de Petra Ramos Guarinon.

Vitorino conheceu o trabalho de Colovatti em 1997, quando foi trabalhar no jornal Diário do Grande ABC, empresa em que fotógrafo trabalhou durante 22 anos. "Quando cheguei, nas horas vagas, descia para o arquivo do Diário para conhecer o jornal em que estava trabalhando, o que tinha sido publicado e qual era a pegada dos fotógrafos", lembra. "Percebi que o trabalho do João se destacava. Tinha uma alegria, uma presença de espírito nas fotografias. Ouvindo as histórias e tendo contato com ele, vi que ele era aquilo, as fotografias eram muito sinceras."

E foi esse jeito verdadeiro e original que chamou a atenção do novo fotógrafo e o fez querer publicar um livro com as imagens. "No cotidiano do jornal, você tende a ser burocrata, pois tem horário de fechamento. Às vezes saímos com quatro pautas. João conseguia deixar um pouco dele em cada uma das imagens que fazia. Isso me tocou muito", contou.

Os dois não trabalharam juntos. Colovatti foi dispensado do jornal em 1993, não trabalhou novamente e faleceu em 2001. Para Vitorino, a partir dos anos 90 o perfil do jornalista mudou e, desde então, Colovatti não se encaixava nos padrões por seu jeito descontraído e pelo amor assumido ao álcool. "Conversando com algumas pessoas, percebi que João era caipira e isso me clareou, por exemplo, sobre o porquê de o João não servir mais para o jornalismo nos anos 90. Não era só a cachaça, eram padrões de comportamento que estavam mudando. Um jornal moderno não pode ter um caipira na redação."

Para o curador da exposição, que ainda não desistiu de publicar o livro do fotógrafo, Colovatti ensinou e influenciou uma geração de fotojornalistas. "Não tinha aquele tom professoral de chamar e dizer como tinha que fazer, mas a própria dinâmica do dia-a-dia, o resultado do trabalho que ele trazia da rua, isso servia de inspiração. Servir de exemplo é a melhor forma de transmitir conhecimento."

"Ele era o Macunaíma do ABCD"

Foi em uma de suas conversas que o jornalista Ademir Médice denominou Colovatti como o "Macunaíma do ABCD", em referencia ao personagem principal da obra de Mário de Andrade. Assim como o protagonista do romance, Colovatti era visto como anti-herói. Daí partiu o nome da exposição. Colovatti não só não estudou fotografia como nunca teve uma máquina fotográfica, algo no mínimo curioso para um profissional. "Era um cara que não tinha estudo, não cuidava da aparência, mas era fantástico, sensível, brincalhão, sarrista, politicamente incorretíssimo, então chegou um momento que ele não se enquadrava", disse Vitorino.

Colovatti gostava de sair da redação e estava sempre atrás de uma história, de um personagem. "Embora ele estivesse na função de repórter-fotográfico, estava sempre querendo ir para a rua descobrir as histórias pitorescas da Região, embora muitas vezes a pauta estivesse orientada pela quantidade de botecos que eles iriam passar pelo caminho. Ele adorava ir para o Riacho, Rio Grande da Serra, Represa, Paranapiacaba, esses cantões ai", contou.

Serviço

A Casa Amarela fica na Fundação Santo André, na av. Príncipe de Gales, 821. A visitação pode ser feita de terça a sexta-feira, das 9h às 21h30 e aos sábados das 9h às 16h. 

 

 

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