29/06/2008 00:00

Especialista canadense elogia a reciclagem em Diadema

Por: Diego Sartorato (diego@abcdmaior.com.br)

Jutta Gutberlet destaca papel inclusivo do modelo de coleta e reciclagem desenvolvido no ABCD

A professora Jutta Gutberlet, da Universidade de Victoria, no Canadá, percorreu vários países do mundo para concluir que o modelo de coleta e reciclagem de lixo em Diadema é o mais avançado que conheceu em suas andanças. Mesmo no Brasil, a professora conheceu outras experiências de tratamento do lixo, que considera aquém dos programas aplicados na cidade do ABCD. Jutta conclui que o modelo diademense se destaca porque os catadores são remunerados, em um sistema que considera justo e inclusivo.

ABCD MAIOR – Qual foi a sua impressão da cooperativa de catadores de Diadema? A senhora visitou outras cidades no Brasil para conhecer os sistemas de coleta seletiva? Quais? Como era o sistema de reciclagem nesses lugares?
Jutta Gutberlet – Como sempre que venho ao Brasil fico próxima de Diadema, pude acompanhar o desenvolvimento da cidade nas últimas décadas. Conheci o programa “Vida Limpa” por meio do nosso próprio projeto, o PSWM (sigla em inglês para “Gerenciamento Participatório e Sustentável do Lixo”), em 2004. Fiquei muito impressionada com a proposta e eu vejo Diadema como um exemplo que pode nos ensinar lições muito importantes. Acompanhei vários grupos no trabalho de coleta e separação do material e escrevi muitos artigos sobre o assunto, assim como falei sobre o assunto em muitas conferências.
A cidade criou uma tendência ao começar a pagar os catadores pela quantidade de material que eles coletam, um sistema justo e que contribui para a inclusão social dessas populações, além de melhorar o ambiente urbano.
Visitei muitas outras cidades na Região Metropolitana de São Paulo (Ribeirão Pires, Mauá), em outros estados do Brasil (Minas Gerais e em estados do Nordeste) e em outros países (Canadá, Colômbia, Argentina, Chile, Índia etc.). Diadema é uma peça chave entre todos esses lugares. Nenhum dos casos que vi é tão avançado quanto Diadema na remuneração pelo serviço ambiental que os recicladores fazem.

ABCD MAIOR – Como política pública com impacto econômico, social e ambiental, o modelo de Diadema pode ser considerado adequado?
Jutta – Sim, como mencionei antes, é importante pagar pelo serviço que os recicladores estão fazendo. Isso contribui diretamente para melhorar a qualidade de vida. Ainda assim, é igualmente importante incluir e capacitar os catadores para provê-los com melhores oportunidades e informação sobre como evitar riscos e aumentar o resultado do trabalho deles. É muito importante melhorar a infra-estrutura de reciclagem em Diadema. Alguns dos grupos (como a Vila Popular) trabalham sob condições muito difíceis, como falta de espaço, de prensas, e, às vezes, falta de transporte.

ABCD MAIOR – O que pode melhorar no Brasil no aspecto da reciclagem de lixo?
Jutta – O aspecto mais importante a melhorar é a separação do lixo nas residências. Muitas instituições de educação ambiental também precisam ser construídas para que os cidadãos separem seus materiais limpos. Isso melhoraria a coleta seletiva e a recuperação de materiais.
Além disso, acredito que espaços de capacitação precisam ser implantados para melhorar a saúde ocupacional e a comercialização coletiva. Há questões também com a falta de infra-estrutura disponível aos grupos de reciclagem. Alguns deles não tem acesso sequer à água ou banheiros; eles fazem a separação sentados no chão, às vezes no sol, ou em lugares com pouca ventilação.

ABCD MAIOR – Qual é o modelo mais adotado no Canadá?
Jutta – No Canadá, programas de reciclagem dependem da cidade e da província (estados) e existem diferenças grandes entre uma cidade e outra. A separação do material doméstico funciona muito bem em nossa cidade (Victoria). Porém, a coleta e separação são deveras mecanizadas e não envolvem muito trabalho humano. Nós também temos coletores informais, eles são pobres e socialmente excluídos. É muito difícil instaurar uma cooperativa de reciclagem e envolver essas pessoas em uma forma organizada de reciclagem.

ABCD MAIOR – O modelo canadense tem alguma semelhança com a iniciativa de Diadema? Quais são os pontos comuns entre as duas experiências?
Jutta – Talvez a única semelhança seja que ambas as cidades (Diadema e Victoria) recuperam uma quantidade significativa de recicláveis. Ainda assim, a grande diferença é que Diadema tem um modelo socialmente inclusivo, e Victoria não.

ABCD MAIOR – Alguma das medidas de Diadema em relação à reciclagem foram levadas ao Canadá? Essas ações estão funcionando hoje? Os resultados são positivos?
Jutta – Por meio do meu trabalho eu recebi um apoio imenso do governo local de Diadema. Nossa pesquisa recebeu total apoio e o interesse dos agentes governamentais sempre os fez presentes nas reuniões do nosso projeto. Como disse antes, a experiência de Diadema tem sido disseminada em conferências no Canadá e em outros países.

 

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