20/04/2017 11:24

Verdade! mentira!

Brincar é ser inteiro. É um refúgio e um ponto de partida

Por Penélope Martins

Penélope Martins
Penélope Martins
Essa semana rolou uma brincadeira na rede social, toda gente escrevendo uma série de verdades que escondiam uma única mentira. Coisas esdrúxulas, difíceis de descobrir.

Eu, como gosto de uma minoria, fiz ao avesso a brincadeira, escrevi umas mentiras e perdi a conta porque a gente sempre se perde quando mente, quase num sobra nada mais do que a verdade nisso. Depois vieram alguns mau humores, gente que queria parar a brincadeira dos outros de publicar suas verdades engraçadas e mentiras imperceptíveis, e eu quis ser minoria de verdade.

Fiz um jogo novo, verdade e mentira:

” verdade!!! eu num gostava de jogar queimada. Detestava brincadeiras com bola, tudo aquilo era agressivo demais pra minha falta de jeito. no entanto, na minha rua, na rua de cima, no quarteirão ao lado, no bairro todo, as crianças brincavam de queimada, os adolescentes brincavam de queimada, alguns pais entravam no rolo.

mentira!! que eu só ficava olhando, algumas vezes eu até arriscava. de toda forma, eu nunca negava minha alegria de ver gente se divertindo na brincadeira.

brincar é ser inteiro. É um refúgio e um ponto de partida.”

Curiosamente, ninguém veio comentar dizendo sobre a última parte do meu texto: brincar é um ponto de partida pra viver… Mas vieram alguns defensores da queimada. Eu dei risada com isso.

Curiosamente de novo, chegou pelo correio (eu adoro essa parte) um pacote com livros pra mim. Dentro, de cara, a capa dizendo MAIORIA Minoria. Corri ler e a história começou com algo que também me seduz: palavras.

Há uma palavra para cada coisa, uma palavra pesa extamente o seu significado e isso pode parecer engraçado já que não podemos dizer uma palavra na balança e ver o ponteiro se mexer… O ponteiro, ah… Essa balança é do tempo que eu era menina e visitava a farmácia do Seo Renato, bem na esquina do quarteirão onde minha mãe tinha sua loja de roupas e eu vou quase me perdendo em outro caso diferente do livro, sim o livro.

João Pedro é um garoto curioso que não é bom de bola, mas tem muito jeito com palavras. São elas que povoam o dia a dia desse menino, fazendo com que ele entenda (ou desconfie de entender) aquilo que acontece ao seu redor.

A primeira descoberta de João Pedro foi com Seo Antônio, que vezes demonstrada excelente humor, vezes ralhava até com as plantas.

“Acho que o seu Antônio devia ter muitos antônimos dentro dele, isso sim.”

Sim, quem não tem uma porção de antônimos dentro de si? Verdade ou mentira?

Mas a brincadeira é sempre o ponto de partida para a vida, como eu disse ali, ó, logo acima, sem querer tentar confundir você que ainda resiste lendo isto. João Pedro num era bom de bola, mas era bom de perceber os arredores botando palavra onde só tinha o vazio da ignorância.

Foi assim que ele reparou na minoria dele mesmo e de Rei, outro menino, que diferente de João queria o futebol, mas mesmo assim não se encaixava na maioria.

João descobre outra palavra no meio desse jogo: preconceito contra as minorias, e isso, senhoras e senhores, me faz pensar novamente em mentiras e verdades: quantos antônimos dentro de nós cultivam preconceitos?

O resto do livro eu não conto porque fica chato demais revelar o segredo da brincadeira. Leiam lá, no livro, mas voltem aqui para brincarmos mais um pouco…

MAIORIA minoria é um livro com texto de Tânia Alexandre Martinelli, ilustras de Veridiana Scarpelli, com selo da Editora do Brasil.

Penélope Martins é advogada, escritora e narradora de histórias, autora de obras como Poemas do jardim – Primeiro catálogo de brincadeiras zoobotânicas poético-ilustradas (editora Cortez) e Quintalzinho (editora Bolacha Maria), ambos em parceria com a artista Tati Móes. Como narradora já se apresentou em diversos lugares do Brasil e em Portugal. Mantém um blog para fomentar leitura, o Toda Hora Tem História, com interface com o blog lusitano, Clube de Leitores.

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