24/08/2015 18:06

Quem é esse pokémon?

Por: Rafael Revadam (rafael@abcdmaior.com.br)

Pessoas nas ruas idolatraram Eduardo Cunha e o apontaram como herói. Mas elas realmente o conhecem?

Em meados dos anos 1990, ou no início dos 2000 e os boatos de apocalipse, surgiu na televisão brasileira o desenho japonês Pokémon. A história basicamente girava em torno de um garoto que queria capturar todos os pokémons, 151 'monstrinhos de bolso', como eram descritos, usados em batalhas. E no intervalo de cada episódio, havia o desafio 'Quem é esse pokémon?', que apresentava a sombra de um dos personagens e desafiava as crianças a acertarem quem era o bicho em questão. Olhar um ser numa sombra e tentar adivinhar quem ele é não é uma metáfora perfeita para o nosso cenário político atual?

No dia 16 de agosto, milhares de pessoas foram às ruas protestar contra a corrupção. E entre xingamentos à Dilma e pedidos de intervenção militar, surgiram faixas de apoio a Eduardo Cunha. “Somos milhões de Cunha”, dizia uma. Já um pôster o colocava como herói nacional, ao lado de um coração e da frase “Amor à Pátria e à Família”. Este mesmo Cunha, que é réu em 22 processos, três inquéritos e foi denunciado em envolvimento na Operação Lava Jato. Mas não vamos falar de acusações, não é mesmo?

Ao assumir a presidência da Câmara, Cunha afirmou que a questão do aborto somente passaria sob o seu cadáver. Caracterizado como defensor da família, ele apenas optou em ignorar os mais de 1 milhão de abortos clandestinos realizados no país. E as mortes que eles carregam. Ironicamente, países que regularam a prática tiveram um aumento no número de mulheres que decidiram seguir adiante com a gravidez. Só no Uruguai foram 30%. Mas é melhor manter essas mortes escondidas do que expô-las sob o Parlamento.

Também é Cunha o autor do projeto que busca instalar o Dia do Orgulho Hétero e principal apoio do Estatuto da Família, que se aprovado reconhecerá casais apenas compostos por homens com mulheres, impossibilitando casamentos e adoções por aí. Para o deputado, o país vive uma “ditadura gay”, criando um novo conceito de repressão em que os vilões são os maiores mortos – um homossexual morre a cada dois dias no Brasil, e este dado é informal, já que a homofobia não é crime e muitos casos são registrados como meras agressões, sem o detalhamento das causas.

Cunha – e mais uma vez ele – é defensor pela redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Mas será que ele sabe que este público é responsável por apenas 1% dos homicídios realizados no país? E que este mesmo pessoal que ele tenta tanto prender é o maior alvo de homicídios, com 52,63%? E que o sistema penitenciário brasileiro não arcaria com o aumento de presos e teria que rumar à iniciativa privada? Ah, disso ele deve saber.

É importante debater a política, mas sempre analisando os dados. Mais do que as pessoas que foram às ruas, existem milhares de pessoas vendo seus direitos sendo pisoteados nacionalmente. Os gays ainda morrem por serem o que são. As mulheres ainda abortam sem a mínima informação. E cada vez se procuram mais culpados do que entendimentos. Numa era de insatisfação política, não dá pra ter indignação seletiva. E pra viver na adivinhação, é melhor a gente ficar no Pokémon mesmo.


Rafael Revadam é jornalista, pós-graduando em Estudos Brasileiros pela FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e repórter de cultura do ABCD MAIOR.

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