21/08/2015 20:06

O implacável surgimento da matadora de machinhos burgueses...

...e a fábula da Godiva de Santo André

E como começou a saga de nossa matadora?

Não se sabe ao certo. Algumas informações, apenas aquelas que ela permitia; era freelancer de algumas agencias publicitárias e frequentava points e picos de elite da descolada noite paulistana. Morava no ABCD por capricho. Ou não...

Gostava da vida em Santo André. Via por lá um certo charme, um certo bucolismo, uma decadência chique em seu apartamento enorme na Rua Padre Manoel de Paiva. Herança da família em idos tempos em que a conta bancária era farta. Porque Santo André também tem o seu “Jardins”.

A sua vida é um grande novo. Há pouco se libertara de um casamento confortavelmente maçante que lhe garantia umas contas pagas, outras trepadinhas que foram ficando cada vez mais sazonais, umas voltas de carro econômico, zero, pela cidade, e mais alguns outros baratos eventuais.

Encheu-se, mandou o cara andar e seguiu a sua vida. Mãe. Lutou para ficar com a filha Elisa. Ficou e cuidou da menina maravilhosamente bem. A pequena de três anos estava linda, saudável, bem educada e feliz ao lado da fortaleza que a mãe é.

Profissionalmente, a vida também não ia mal.

Aline González passou a dar-se ao luxo de não mais se fixar em nenhuma agencia. Sempre era muito requisitada e trabalho não faltava. Era regiamente paga e em pouco tempo começou a rolar também premiações e outros mimos na tentativa de segurar a tão esmerada profissional.

Tudo lindo. Tudo?

Algo lhe faltava...

Em um dia em que os sons do Jards Macalé com toda sua “Farinha do Desprezo” (confira no vídeo ao final do texto) não servem para livrar-se das insanas elucubrações, ela desmoronou no sofá de sua bela casa e começou a pensar na vida que teve até então...

Linda.

Aos 31 anos tinha o rosto que se vê nas atrizes dos filmes do Roger Vadin.

Pequena, pernas lindas, cinturinha deliciosamente fina e quadril diabolicamente largo, ela era, sim, um espetáculo de mulher. Qualquer homem do mundo arriscaria um torcicolo na rua ao vê-la desfilar.

Mas então o que raio acontecia? Porque o merda do marido a trocava por tão estúpidas meninas abobadas? Que rolava? Ela era uma transa apoteótica também... Durante os três anos de casada houve-se maravilhosamente bem na cama com o marido.

Também era muito culta. Gostava de Gil, se acabava com Caetano Veloso, tirava uma onda de Tim Maia, dançava com Jorge Ben, fumava seus baseados com Fagner, achava Artur Verocai um barato e seu maior pecado era um ou outro som do Neil Diamond que seu ouve escondida.

Achava Sganzerla um barato, Gláuber genial, Humberto Mauro genioso, Nelson Pereira dos Santos um divino e Beto Brant um gato. Curtia um bom vinho, adorava charutos cubanos, era ótima pintora, excelente fotógrafa, oras bolas... Que raios tava acontecendo? Porque o mundo não olhava para Aline?

Que diabos!

O disco do Macalé acabou. Naquela tarde não surgiu nenhuma resposta, tampouco uma solução mágica e mirabolante. Aline repousou o copo num canto de sua sala e abriu a agenda.

Constatou então que tinha uma consulta no ginecologista e desanimou-se de vez. Resignada, arrumou-se e partiu. Na sua total falta de ânimo torceu para chegar antes do horário da van entregar sua filha.

“Quem sabe não passo na escolinha dela...”, conformou-se pensando consigo mesma.


Aline González é publicitária e andreense


Tags:
crônica

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Jards Macalé

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