20/04/2017 10:09

O golpe

Do dia para a noite, aconteceu um golpe

Janderson Lacerda
Janderson Lacerda

Por Janderson Lacerda

Caro leitor, nesta semana, terei a honra de dividir o espaço desta tribuna com a excelente Profa Simone de Oliveira; que mais do que uma crônica, nos trará uma reflexão sobre a situação dos professores dentro do obscuro cenário político -econômico brasileiro! Boa leitura e obrigado pela visita!

Ela tinha apenas um sonho: tornar-se professora. Admirava os mestres com aquele giz branco na mão e aquela lousa cheia. Isso foi numa época em que a ditadura imperava e o silêncio era regra de ouro. Não importava o que diziam dos mestres, seu sonho era tornar-se um deles, ter aquele conhecimento, aquela vontade de expressar ideias, aquelas palavras bem entonadas, bem articuladas. Esse era o mundo ideal para ela. Ela ainda não conhecia a malandragem que corria atrás dos bastidores do mundo, ela não entendia as agendas a serem cumpridas pelos governantes e seus asseclas. Em poucas palavras, ela era ingênua.

O tempo passou e seu sonho tornou-se realidade. Ela estudou e tornou-se professora. Ali, no meio de mestres e pessoas iluminadas, ela foi aprendendo a tornar-se menos ingênua. Pela primeira vez em sua vida ouvia os termos neoliberalismo, capitalismo, classe trabalhadora. Conheceu teóricos importantes que dão voz às ideias do mundo, porém, começou a ter problemas com os conhecidos, pois os mesmos diziam a todo o momento que aquelas pessoas eram comunistas, que “comiam até crianças” e que eles embotavam a fé e a religião. A todo o momento diziam que estes “ateus” iriam acabar com a humanidade. Verdadeiros desordeiros, pessoas de má índole e que gostavam de arruaças. Mas ela não se importou, continuou comprando seus livros, querendo saber cada vez mais sobre o mundo e suas verdades.

O tempo passou novamente e ela ingressou na carreira docente. Vislumbrava mil possibilidades. Poderia ensinar filosofia para os pequenos pensarem, poderia falar sobre sociologia, sobre política, assim, os pequenos já cresceriam com uma ideia de como é o mundo de verdade, como está dividida a nossa sociedade, mas o currículo não era voltado para estas questões. Ela tinha de dar conta de diversos saberes, o currículo precisa ser seguido. Nas diversas discussões em que esteve presente, o currículo era algo importante a ser seguido. Aquilo foi cansando a pobre professora; todos os dias a mesma coisa, todos os dias a mesma falácia. Todos os dias, os mesmos motivos, discussões rasas e sem importância social. Tudo para manter a ordem social vigente estabelecida. Mas ela continuava sua saga, sempre atenta e sempre tentando mostrar aos alunos não apenas conteúdos, mas queria muito que eles pensassem sobre o mundo e suas situações, suas contradições.

O tempo passou novamente. Ela já tinha umas décadas em sala de aula. Sua voz não era a mesma, seu corpo já não era o mesmo, pois como seres biológicos que somos, um dia nascemos, crescemos, procriamos, envelhecemos e morremos. É um ciclo, é um fato. A professora estava seguindo o ciclo da vida. Então ela pensou: “que bom, está chegando minha aposentadoria, depois de tantos anos em sala de aula! Acredito que fiz o melhor que pude”. Adquiri sequelas, é fato, tenho dores na coluna, varizes nas pernas, a garganta não é a das melhores, o ouvido não está cem por cento, porque dentro de uma escola, por décadas, você está exposto a muito barulho e com o tempo isso prejudica a sua audição. Tudo corria de acordo com o plano, sim, ela iria se aposentar... Viu ao longo do tempo as amigas se aposentando, já cansadas da jornada dupla ou até tripla, pois o salário de uma jornada muitas vezes não era compatível com a realidade. E pensou: “que bom, meu dia está chegando”!

Quando, sem mais nem menos, do dia para a noite, aconteceu um golpe. Minto: nem um golpe acontece do dia para a noite; a coisa já estava toda orquestrada. Um ditador tomou o poder naquele país, tirou o representante anterior, que foi eleito pelo povo, e junto com seus asseclas mudou as regras do jogo. Ele tinha que seguir a agenda neoliberal, ele tinha que justificar o injustificável. Por todos os lados, houve comoção: a classe dos professores, desesperada com a situação não teve outra saída a não ser protestar. Tinha protesto nas ruas, protesto nas escolas, protesto nos ônibus, no metrô e em outros lugares. A professora teve um colapso nervoso e foi parar no hospital. Ela pensava: “não é justo, eu já trabalhei muito, eu não posso mais continuar. Não posso estender mais este tempo, senão morrerei trabalhando”. O plano era esse, ela ainda não tinha percebido.

No corredor do hospital, os enfermeiros cochichavam uns para os outros: -- Tadinha da professora!

Outro dizia: -- está cheio de professor louco lá no hospital do servidor, que triste, não? Depois de anos de trabalho e terminar assim... Alguém respondeu: -- agora vão chamar o próximo do concurso para ficar no lugar dela, pois do jeito que ela está, acho que não terá condições de voltar para a sala de aula.

E outro emendou: -- acho que não terá mais concurso, eles vão terceirizar a educação também, quem entrar agora vai seguir as regras da terceirização. Outro, completando a ideia do outro disse: -- nem precisa mais ser professor, apenas alguém de notório saber.

Simone Oliveira é mestre em Politica e Gestão Educacionais pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente é professora universitária. Escreve contos e crônicas.

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