19/04/2017 09:32

Godot deu um cano

Por: Fernanda Pompeu (fernandapompeu@gmail.com)

O misterioso Godot pode ser também qualquer sonho acalentado por uma vida inteira

Dois mendigos, Vladimir e Estragon, são as personagens centrais da peça teatral Esperando Godot. Ela foi escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989). A estreia se deu em Paris, no Théâtre de Babylone, há mais de 60 anos.

De lá para cá, Esperando Godot segue encantando inúmeros grupos teatrais e públicos do mundo todo. É o tipo de obra perene. Pois ela trata de um tema que independe da moda, do contexto social, da assinatura de uma geração.

Os dois mendigos aguardam um sujeito que nunca chega. Passam as estações do ano e eles matam o tempo à espera. Eis um diálogo:Estragon: Vamos embora daqui.Vladimir: Não podemos.Estragon: Por quê? Vladimir: Estamos à espera de Godot. Estragon: Ah, é verdade!

Para muita gente, o tal Godot seria a morte. Então viveríamos a existência fazendo e desfazendo coisas enquanto a morte não chega. Isso também explicaria a eternidade do texto de Samuel Beckett. Uma vez que – analógicos e digitais, ricos e miseráveis, finlandeses e palestinos, eleitores do Obama e do Trump – todos temos um encontro marcado com o nosso fim.

Mas creio que o misterioso Godot pode ser também qualquer sonho acalentado por uma vida inteira. Pode ser o desejo de encontrar o parceiro ou a parceira ideal, o emprego maravilhoso, o sentido da existência. Ou o sonho de ganhar na loteria e ficar tão milionário que todos à volta nos invejariam para valer.

Godot pode ser também a presença do Estado que queremos honesto, justo, bondoso. Ou de uma economia de mercado que premie inovadores e talentosos. No plano mais íntimo, o reconhecimento por parte dos outros do nosso sacrifício, do nosso amor. Em suma, qualquer um escolhe o seu Godot.

Só que, tanto na peça quanto na vida, esse cara nunca vem. Não se materializa, não segura a nossa mão. Ou então ele é invisível aos olhos humanos. Quer dizer, pode até ser que Godot venha, mas a gente não percebe. Porque estamos sempre ocupados e distraídos.

Seja como for, uma hora a gente deveria parar de esperá-lo. Mudar de procura. Deixar o sonho perfeito, ou o enorme medo, para trás. Seguir em frente. Sei lá, assumir que esperar Godot é de uma inutilidade atroz.

Ilustração: Régine Ferrandis

Fernanda Pompeu é webcronista. Escreveu roteiros para a série de TV Mundo da Lua, transmitida entre 1991 e 1992 na TV Cultura. É autora do livro 64, publicado pela Brasiliense. Mantém o site Fernanda Pompeu Digital.

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