09/01/2017 14:54

Ele está de volta

Por: Jefferson José da Conceição (jefferson.pmsbc@gmail.com)

Hitler, o “Führer”, acorda, no ano de 2011, em um terreno baldio no centro de Berlim, sem qualquer tipo de abrigo ou estafe para ajudá-lo

Jefferson da Conceição
Jefferson da Conceição

Em 2015, estive em Berlim e fiquei impressionado com a capacidade dos alemães em terem reconstruído, de modo tão sutil e futurista, uma cidade literalmente arrasada pelos bombardeios na Segunda Guerra. Pude também visitar o campo de concentração de Sachsenhausen, bem próximo de Berlim (45 minutos de trem). Uma das visitas emocionalmente mais fortes que pude viver.

Hoje, acabo de ler o livro “Ele está de volta” de Timur Vermes (Editora Intrinseca, 2014, 304 p.). Recomendo a leitura. O livro foi a base do filme homônimo, de David Wnendt.

A obra é uma sátira inteligente do mundo em que vivemos nesta segunda década do século XXI, a partir de um acontecimento naturalmente absurdo, que é a presença, neste novo século, em pleno exercício de suas funções físicas e mentais, de um dos personagens mais fortes, fatídicos e monstruosos da história mundial, que viveu na primeira metade do século XX: Adolf Hitler.

Pense que, por algum motivo, Hitler, o “Führer”, acorda, no ano de 2011, em um terreno baldio no centro de Berlim, sem qualquer tipo de abrigo ou estafe para ajudá-lo. Assim começa o livro, o que gera no leitor uma série de curiosidades e interrogações naturais.

Inicialmente atordoado, sem entender o que aconteceu e com muito estranhamento sobre tudo a sua volta, Hitler vai, pouco a pouco, tomando noção das mudanças que ocorreram na sociedade desde os tempos da Segunda Guerra Mundial.

Ajudado por pessoas que, claro, consideram que estão diante não do verdadeiro Hitler, mas sim de um ator convincente e apaixonado pelo seu papel, a tal ponto de parecer bastante com o personagem histórico, Hitler se depara com as cores da nova Cidade de Berlim, os novos prédios, hábitos de moradores e transeuntes, novos automóveis. Conhece a TV, o computador, a internet, o email, o youTube, as redes sociais.

Durante todo o livro, Hitler faz a análise das mudanças ocorridas nos últimos setenta anos a partir dos valores que tinha no período de ascensão do nazismo. Assim é o caso, por exemplo, a expansão dos imigrantes na Europa atual. Hitler a analisa a partir da perspectiva da supremacia da raça alemã e do seu desprezo pela democracia.

Ainda que visto de uma maneira cômica, seu poder de persuasão é tão grande que Hitler acaba ganhando um programa de TV, atingindo altos índices de audiência.

O discurso ditatorial e sua propagação em um ambiente econômico e social propício

Sim, o mundo mudou muito nos últimos setenta anos. Mas há fatores econômicos e sociais que se recolocam a olhos vistos. Se extrairmos os detalhes factuais de cada momento, observaremos que a essência dos acontecimentos se reconstituem na história.

Façamos uma breve recuperação dos fatores que levaram à propagação do discurso ditatorial do Führer. Em grande medida, a difusão do discurso se deve a forte crise econômica, desemprego, inflação, falta de expectativas quanto ao futuro e fragilidade das instituições naquele momento. No caso mais específico, uma Alemanha arrasada pelos efeitos da derrota na Primeira Guerra Mundial e com uma profunda crise durante a década de 1920.

É no contexto de crise econômica que se dá a expansão das ideias nazistas. Assim, após ter participado da Primeira Guerra como um simples soldado (tendo sido inclusive ferido em combate), Hitler, em 1919, entra para o pequeno Partido Trabalhista Alemão. Um ano depois, este partido passa a denominar-se de “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães”, o Partido Nazista. Em 1921, Hitler assume o comando do Partido. Em 1923, tenta ganhar o governo da Baviera por meio de um golpe malsucedido. É preso por nove meses, quando escreve o livro “Minha luta”, publicado em 1925.

Entre as principais bandeiras do Partido está a forte crítica ao Tratado de Versalhes, que decretou condições bastante duras para a Alemanha derrotada na guerra, e, por consequência, uma dívida pesada a ser paga por todo o povo alemão.

Ao longo de toda a década de 1920, as condições favoreceram o discurso de Hitler: agravou-se a recessão econômica na Alemanha; a inflação tornou-se incontrolável, alcançando uma hiperinflação; instalou-se um ambiente de caos social, especialmente após a crise internacional de 1929 com o crash da Bolsa de Nova York. Os culpados pela crise do País, segundo os nazistas, eram os judeus, o comunismo e as nações vencedoras da Primeira Guerra. Hitler pregava a autoestima e a superioridade do povo alemão, bem como a recuperação da economia.

Neste contexto, e com esse discurso, o partido de Hitler conquista cerca de 1/3 dos votos nas eleições presidenciais de 1932. Perde para Hindenburg, mas mostra força. Em 1933, Hitler é nomeado Chanceler da Alemanha.

A geração de empregos (pela política armamentista), que os nazistas souberam capitalizar, associado ao acirramento das tensões, que atingiu seu ápice com o incêndio do Palácio de Reichstag, atribuído a um ato dos comunistas, fortalece o apoio ao Führer. Dias depois do incêndio, o partido nazista ganha as eleições. Esta sequência de fatos dá à Hitler plenos poderes ditatoriais.

A ditadura e o terror aumentam. Em 1935, são decretadas as Leis Raciais de Nuremberg, que aumentam a perseguição e segregação dos judeus. Ao final da guerra, seis milhões de judeus foram vítimas do holocausto.

Tendo o controle da nação, Hitler inicia sua política de expansão externa pela via militar. Em 1936, ocorre a formação do eixo Alemanha, Itália e Japão. Em 1938, a ocupação da Tchecoslováquia; em 1939, a invasão da Polônia, estopim para a Segunda Guerra. Em 1940, Hitler ocupa a França, Belgica, Países Baixos.

Após as conquistas iniciais, e com a entrada dos EUA na guerra (1941), que se unem à Inglaterra e à União Soviética, contra os países do Eixo, Hitler começa a perder a guerra. Em 1944, já derrotado, suicida-se em um bunker a cerca de dez metros abaixo da terra (vale a pena ver também “O Bunker”, filme de George Schaefer, com Anhony Hopkins).

Por que não de novo? Pergunta Hitler a si mesmo

A meu ver, um dos pontos fortes do livro e que nos remete a refletir sobre os riscos que corre a sociedade contemporânea é quando Hitler, já menos atordoado pelos fatos, passa a refletir sobre como poderia voltar a ter o domínio da sociedade e conduzir o seu povo à vitória.

Reproduzo a seguir este trecho do livro no qual Hitler se dá conta de que, mesmo neste novo mundo, é possível fazer tudo de novo, uma segunda vez:

“Em uma das primeiras noites, rolei inquieto na minha poltrona, insone após leituras exaustivas, resmungando do meu destino difícil, até que de repente tive um estalo. Imediatamente me levantei, os olhos abertos pela inspiração. Eles espreitaram os grandes vidros com confeitos coloridos e tudo o mais. Foi o próprio destino, como metal incandescente derramado diante dos meus olhos interiores, que interferiu com sua mão invisível no curso dos acontecimentos. Bati com a mão espalmada na testa; era tão óbvio que eu mesmo me xinguei por não ter pensado naquilo antes. E também porque o destino, pela primeira vez, não tomou as rédeas da situação para mudar os acontecimentos a seu favor. Não fora exatamente em 1919, na pior época de miséria alemã? Não foi nesse período que um cabo do exército desconhecido levantou a trincheira? Apesar da opressão das circunstancias pequenas, mínimas, na verdade, ele não acabou se revelando um orador de talento entre muitos, entre os desesperançados, logo ali, onde menos eu esperaria? Esse talento também não se revelou um tesouro surpreendente de conhecimento e experiência, reunido nos dias mais amargos de Viena, uma curiosidade insaciável que fazia o adolescente com mente aguda absorver, desde a mais tenra juventude, tudo o que tinha relação com a história e a política? Conhecimentos dos mais valiosos, aparentemente armazenados ao acaso, mas, na verdade, acumulados com cuidado, ponto a ponto, pela providência, em um único homem? E ele, esse cabo invisível do exército, em cujos ombros milhões depositaram suas esperanças, não arrancou as amarras de Versalhes e da Liga das Nações, e, com a facilidade emprestada pelos deuses, não resistiu às batalhas forçadas com os exércitos da Europa, contra a França, a Inglaterra, a Rússia? Este homem, apenas com a formação supostamente mediana, não levou a pátria ao píncaro mais alto da glória, enfrentando o julgamento unânime de todos os chamados especialistas?

Ou seja, este homem sou eu.(...)

No entanto, ainda havia uma pergunta a ser respondida: por que eu, se tantos grandes nomes da história alemã esperavam por uma segunda chance de conduzir seu povo a uma nova glória? Por que não Bismarck, um Frederico II? Um Carlos Magno? (...)

A resposta para essas perguntas chegou após as reflexões iniciais de forma tão tranquila que eu quase sorri de tão lisonjeado que estava. Pois a tarefa hercúlea que esperava ser cumprida de fato parecia adequada para colocar mesmo os homens mais corajosos, os grande e maiores alemães, no devido lugar. Sozinho, por conta própria, sem o aparato do partido, sem a força governamental, valia confiar àquele que já havia mostrado que estava em condições de limpar o estábulo de Augias democrático. A pergunta que deveria ser respondida neste momento era: eu queria assumir todo aquele sacrifício doloroso novamente, uma segunda vez? Engolir todas as privações, engolir em seco até mesmo todo o desprezo? Pernoitar em uma poltrona bem perto de uma chaleira, na qual durante o dia salsichas simples de carne bovina eram preparadas para serem consumidas? E tudo isso por um povo que já deixou seu Fuhrer ao léu na luta pelo seu destino? O que aconteceu mesmo com a intervenção do grupo de Steiner? Ou com o de Paulus, aquele patife desonrado?

Mas aqui o caso era refrear o ressentimento e separar estritamente a ira justificada da raiva cega. Assim como o povo precisa defender seu Führer, o Führer também deve defender seu povo. O soldado raso, sob a liderança correta, sempre deu o seu melhor. Não há acusação a se fazer contra ele se não marchar confiante até o fogo inimigo, pois essa ralé de generais medrosos, que se esquece de suas obrigações, pisoteia com as botas a honrada morte soldadesca.

  • Sim! - gritei para a escuridão da banca. - Sim! Eu quero! E vou! Sim, sim e sim, mais uma vez!

Ao modo de conclusão

Este meu artigo resenha sobre o livro “Ele está de volta” me leva a manifestar a mesma preocupação por mim já expressa no artigo “A Direita ‘saiu do armário’”, publicado em 23 de maior de 2016.

Em uma democracia, é normal que ora a esquerda, ora a direita, ora o centro assuma o poder pela via das urnas. Isto faz parte das regras do jogo.

Nos últimos anos, há um processo de “endireitização” no Brasil e no mundo atualmente. Isto significa a defesa do capitalismo, do livre mercado, das privatizações, da desregulamentação da economia e do Estado Mínimo (verdade que grupos mais radicais da Direita são defensores do "Estado Máximo", na linha das ideias nazifascistas: 'tudo pelo Estado, tudo para o Estado, tudo do Estado'). A redução das políticas de welfare state. A aceitação da desigualdade social como algo natural. A valorização do individualismo e do empreendedorismo. A defesa das tradições e da família patriarcal. O combate ao aborto, eutanásia e homossexualidade. Muitas vezes, são exaltados também a “limpeza” ética e o suposto combate ferrenho à corrupção.

Minha preocupação, no entanto, é que, em um ambiente de crise econômica, social e política, a defesa destes valores, por parte de grupos radicais, pode recolocar novamente a busca de culpados (esquerdistas, imigrantes, outras religiões) e de novos ´”heróis”.

No princípio, a sociedade tende a considerar estes “heróis” - como foi o caso de Hitler - como excêntricos e até cômicos. Há uma certa tolerância com eles. Aceita-se inclusive em “testar” a eficácia das suas propostas. Tudo como se, caso necessário, pudesse a sociedade freá-los quando bem quisesse.

Entretanto, sabemos que a sociedade pode perder controle dos processos e que, neste caso, os resultados são muito tristes e duros de serem esquecidos.

Jefferson José da Conceição é Prof. Dr. da USCS. Foi Secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo de São Bernardo do Campo entre jan 2009 e julho 2015; Superintendente do SBCPrev entre agosto 2015 e fevereiro 2016. Foi Diretor Técnico da Agência São Paulo de Desenvolvimento entre 5 de fevereiro de 2016 e 6 de janeiro de 2017

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