16/06/2016 15:52

Bingo

Por: Janderson Lacerda Teixeira (janderson.lacerda7@gmail.com)

Não é fácil cantar as pedras em tempos de conturbação política

Foi logo depois da quadrilha que Raimundo começou a cantar as pedras. O salão era imenso e estava superlotado.

Raimundo benzeu-se, apanhou o microfone, fez diversos anúncios, sem esquecer-se dos devidos agradecimentos, e logo iniciou:

--Letra B de Brasil minha gente, e o número é 13!

Antes que tentasse repetir a dezena, foi interrompido por uma voz forte:

--Petralhas!

Constrangido, Raimundo, achou melhor não repetir o número e rapidamente cantou a segunda pedra, com o mesmo bom humor de sempre.

--O número agora é 4 e 5. 45!

Inesperadamente uma voz rouca destoou da multidão:

-- Vai, coxinha!

Raimundo, já incomodado, tentou modificar o rumo das coisas e convidou os participantes para saborearem o delicioso pastel feito por dona Dilma.

--É Nilma!, protestou, irritadiça, a mulher.

--Ê, dona Nilma, a senhora é a melhor cozinheira da história desta quermesse, disfarçou o homem.

E só após perceber uma calmaria no ambiente prosseguiu:

--Letra N de nariz e o número agora é 22!

Sentiu alivio por ser um número isento de questões políticas; e com confiança optou por repetir o anúncio:

--22. Dois patinhos na lagoa!

-- Quem vai pagar o pato?, gritaram.

Raimundo se assustou e rapidamente tentou chamar outro número, mas foi interrompido por uma voz suave com sotaque holandês.

-- Quem vai pagar o plágio?

Raimundo retomou a fala. A esta altura, já suava frio. Tomou um gole d´água, segurou firme o microfone e disse:

-- Quem quer ganhar este maravilhoso conjunto de panelas Tramontina?

-- Ouviu, então, um barulho agudo, semelhante a um tino, ecoando do fundo do salão. E temeu que fosse iniciado um panelaço na quermesse da igreja, que frequentava há doze anos.

Com um misto de medo e culpa, lamentou por ter mencionado a maldita palavra panela e decidiu cantar, rapidamente, outra pedra.

-- Letra O de “oio”, brincou o homem, e o número é 15.

-- É 15, minha gente! Insistiu sorrindo.

Uma jovem correu para frente do salão aos berros:

-- Bingo! Bingo!

No mesmo instante um grupo correu na direção de Raimundo com gritos de fúria:

-- Golpista! Golpista! Golpista!

Raimundo tentou fugir, mas foi contido pelo pároco, que tomou o microfone das mãos do apavorado homem e iniciou um discurso.

-- Caros irmãos, eu compreendo a preocupação e divergias de pensamentos, mas quero dizer que não há o que temer!

O pároco, neste instante, foi interrompido por aplausos e centenas de vozes que bradaram:

--Fora, Temer! Fora, Temer! Fora, Temer!


Janderson Lacerda Teixeira é mestre em Políticas e Gestão Educacionais. Atualmente é professor universitário, além de ser escritor. É amante das letras e, por coincidência quase literária, nasceu no ABCD.

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Tags:
crônica conservadorismo golpe político

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