11/01/2017 14:33

Acidente pavoroso

Por: jose antonio costeira leite (jose.aleite@yahoo.com.br)

Da carceragem do 15º DP ao Complexo Penitenciário, no interior de São Paulo, Reginaldo viu seus dias de liberdade esvaírem-se rapidamente

Janderson Lacerda
Janderson Lacerda

Por Janderson Lacerda

Tudo aconteceu muito rápido, Reginaldo foi flagrado assistindo a um filme de pornochanchada. E como a lei que proibi o acesso a vídeos eróticos em território brasileiro foi aprovada pelo Congresso Nacional, Regi (como gostava de ser chamado), foi surpreendido em uma varredura online da Polícia Militar, e foi preso em casa, literalmente, com as calças na mão. Da carceragem do 15º DP ao Complexo Penitenciário, localizado no interior de São Paulo, Reginaldo viu seus dias de liberdade esvaírem-se rapidamente.

Na cadeia foi obrigado a adaptar-se à rotina do hostil ambiente. Teve seus cabelos raspados, recebeu uma calça bege e uma camiseta branca amarelada.

Reginaldo passava a maior parte do tempo calado; tentou recusar a comida, habitualmente servida azeda, mas, por fim, foi vencido pela fome. Também tinha receio de dormir, mas o cansaço foi se tornando tão insuportável que acabou desmaiando em pé com a cara encostada na porta, o único espaço disponível na cela.

Na noite em que Reginaldo dormia foi, abruptamente, acordado por um horrendo grito. Assustado, tentou fugir... Mas para onde? Foi forçado a ver, então, dois presos arrancando, acidentalmente, o braço de outro detento. Desesperado, esmurrou e derrubou a porta junto com outros cinquenta presos; que correram sem rumo pelos corredores escuros da penitenciaria, atropelando a extensa comunidade de ratos e baratas.

Captura

Enquanto corria, Reginaldo viu o presídio ser tomado acidentalmente. E, acidentalmente também, diversos agentes penitenciários foram mortos, assim como outros presos. Reginaldo estava em choque e não sabia se rezava ou se fugia. Na dúvida rezou e correu e, até, tentou esconder-se, mas foi capturado por um grupo de detentos que lideravam por acidente a rebelião.

Regi foi levado até a laje da penitenciaria; foi amarrado e espancado, acidentalmente, com um cabo de vassouro que insistia em beijar sua cabeça até abri-la. O sangue jorrava pela face do homem que clamava -- pelo amor de Deus por sua vida; Reginaldo era insultado, acidentalmente, por outros presos que desejavam extirpar sua pele, enquanto ele ainda respirava.

A polícia chegou, mas não conseguiu conter a rebelião a tempo. Regi por acidente foi decapitado e seu corpo foi incinerado.
Por fim, a rebelião foi controlada. O Ministro da Justiça lamentou o acidente pavoroso, mas tranquilizou a população, alegando que o sistema carcerário brasileiro nunca saiu do controle do governo; até que um novo acidente ocorreu em outro presídio e outros detentos foram assassinados. E, assim, os acidentes foram ocorrendo em diversos presídios por todo o País...

Janderson Lacerda Teixeira é mestre em Política e Gestão Educacionais. Atualmente é professor universitário, além de ser escritor. É amante das letras e por coincidência, quase literária, nasceu no ABCD.

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