19/12/2016 11:08

A última canção de Saul

Por: Marcelo Mendez (mmfluk@gmail.com)

Crônica homenageia presidente da Liga de Futebol Amador de São Bernardo, que se aposentou

Saul transformou a Liga de São Bernardo em uma das melhores do Estado. Foto: Rodrigo Pinto
Saul transformou a Liga de São Bernardo em uma das melhores do Estado. Foto: Rodrigo Pinto

E então chegamos ao fim da temporada varzeana de 2016. Foram milhares de jogos, de festas, de dores, de amores, de sonhos e frustrações. De campeonatos vencidos, taças perdidas e toda a gama de paixões que essa coisa maravilhosa de várzea nos reserva.

Agora recolhemos nossas chuteiras, o cronista descansa a pena e vamos então comer umas castanhas e tomar uma cervejinha. É hora de descansar, de ver o que aconteceu no ano da graça de 2016 e descansar as turbinas para voltar no ano novo que se aproxima.

Pensando nisso tudo, no que houve de mais marcante, a crônica de hoje se encerra de uma maneira diferente para contar mais uma daquelas histórias de várzea: a história de Saul Lino.

E quantos gols fez o Saul? Quantos títulos ele tem? Quais os grandes jogos de Saul? Nenhum. Saul é dirigente de futebol de várzea. Dedicou sua vida, não ao glamour do que o futebol elitizado chama por aí de “cartola.” Nada disso. Na várzea, no calor que benze os domingos de terrão, não há como se fazer uso de tal vestimenta e essa pompa é completamente desnecessária. Ao longo de sua vida Saul não teve tempo para essas bobagens.

Pisou em terra dura, viu muita bola marrom, rodou por todas as periferias de sua São Bernardo e procurou da maneira que lhe foi possível uma forma para cuidar da sua gente para dar aos que nada tem, um mínimo, uma possibilidade de praticar democraticamente o futebol, esse esporte que um dia foi do povo.

Ao longo de sua gestão frente à Liga, conseguiu muito disso. Fez valer a coisa da democracia da prática da modalidade, conseguiu fazer o velho campo do Jardim Lavínia um centro esportivo multiuso, aberto à população para uso diário, lutou para consertar o Estádio de Alves Dias e entrega hoje uma das principais ligas do futebol de várzea do Estado de São Paulo, com os melhores campeonatos disputados.

Agora Saul também vai descansar. Aos seus 62 anos, Saul deixa as ligas, deixa o futebol de várzea, deixa a vida maluca e mundana das grandes cidades e vai pro mato dele descansar. Não levará consigo placas de ouro, contas em paraísos fiscais, ganhos duvidosos, nada disso.

Para seu descanso merecido, Saul levará consigo sua decência, sua honradez, sua dignidade e toda grandeza de um homem que fez da sua vida no esporte de várzea uma profissão de fé e amor. Agora se aposenta disso tudo pra ir brincar com os netos.

No mundo, poucos saberão da trajetória de vida de Saul Lino pelo futebol de várzea, talvez nem seja necessário, decerto ele nem vai ligar para isso. Mas essa coluna não poderia deixar isso tudo passar em branco, sem dedicar a crônica da semana a ele, a esse homem que dos terrões por onde sempre andou levará apenas os sorrisos que conquistou.

Bom descanso, Saul. Até breve...


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